22.12.05

Uns arteiros

O pior para a nossa cultura não é a taxa de analfabetos, mas a de mal-afalbetizados. Os analfabetos estão conscientes de suas limitações, os mal-afalbetizados nem sempre. Nesse último grupo se incluem aqueles que, mesmo tendo nível superior, carregam consigo uma carga arrogante de cultura superficial, suficiente apenas para fazê-los crer que sabem aquilo que desconhecem completamente.

Um anafalbeto nunca vai se meter a dizer que "Celine Dion é uma diva da ópera", que ir ao Teatro é "chique", se gabar de que adora ler porque tem Paulo Coelho ou Jô Soares na cabeceira, se achar informado porque não perde um Jornal Nacional e assina Veja, ou julgar-se cult porque no seu casamento um coral cantou "Aleluia de Hamlet".

Não estou falando da elite intelequitual esnobe, que realmente sabe alguma coisa mas não usa isso pra nada digno, estou falando de uma pseudo-cultura perniciosa e destrutiva. Um analfabeto sabe que precisa de ajuda para sair de sua condição. Um mal-alfabetizado acha que não precisa de ninguém pois já sabe tudo, que seus conhecimentos gerais são "profundos", e ajuda a estragar ainda mais a pseudo-cultura de outros mal-afalbetizados. Um analfabeto pode culpar o governo, um mal-afalbetizdo só pode culpar a si mesmo porque, tendo condições de conhecer, preferiu ler só os títulos. Um analfabeto não compra livros. O mal-afalbetizado compra aquele cuja capa combina com sua estante.

São eles, os mal-afalbetizados, que espalham na internet mensagens bonitinhas mas ordinárias assinadas por Clarice Linspector, Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Millôr Fernandes. Eles têm conhecimento suficiente para saber que esses autores existem e são grandes literatas. Mas nunca leram uma página deles, logo não têm cultura para identificar que o estilo da mensagem não tem nada a ver com o suposto autor. E não contentes em chafurdar na sua ignorância, repassam-na singelamente a outrem, num movimento destrutivo em massa. Sempre fico imaginando a cara de um Millôr ao ler um texto ruim pra caramba e ver seu nome fulgurando embaixo. Anos e anos construindo uma escrita, enfrentando críticas, parindo livros... e um mal-afalbetizado pode acabar com sua reputação literária em minutos. Não acaba porque quem conhece o autor desconfia e ri. Mas um outro mal-afalbetizado que não o conhece lê o texto apócrifo e o toma por verdadeiro. Aí a situação piora, porque se antes só conhecia o nome do autor, agora ele conhece mal o autor, e já pode dizer pra todo mundo que adora Millôr, "ele é tão romântico!".

Para um mal-afalbetizado e para um intelequitual, arte é apenas mais uma forma de status. Mas um mal-alfabetizado não quer saber o que é arte. Encontrei com um outro dia que me perguntou o que eu andava cantando. Respondi que algumas peças eruditas: Carmina Burana, alguma coisa de Beethoven, Mozart, Schumann...
- Ah, lá no Teatro, né? Escuta, você devia se inscrever no FAMA da Rede Globo.


Ainda

Quando foi embora
esqueceu uma rima,
um quarto de hora,
e as chaves em cima
da minha dolência.

Deixou uns pretextos
vagos espalhados
e uns mil contextos
por todos os lados
da sua ausência.

Quando foi embora
não fechou a porta
e vaga agora
como sombra morta
pelo corredor.

Então, o pior:
roubou-me a distância,
as sombras, o pó,
e a ignorância
quanto a sua dor.

Fiquei com saudade
de nada saber
da sua verdade
e de não lhe ver;
cega e feliz.

Fiquei carecendo
de um esconderijo
e de um adendo
pra o meu rosto rijo
de péssima atriz.

Fiquei aspirando
não ter mais palavras
perder-me pensando
só eu e as larvas
no meu cobertor.

Mas - biltre! - preciso
entocar-me lá fora
com flores e um riso:
quando foi embora
foi quando chegou.

Saudade do escuro
e de não ouvir,
do imenso muro...
saudades de ti
e de um estopim.

Saudades apenas;
sem rugas, sem rosas,
posto que há penas
bem mais dolorosas
cumprindo-se em mim.

(não é de Clarice Linspector, é minha mermo)

19.12.05

Quase no fim...

Querendo inventar-te sem um fim

Vejo
que tu me vês.
Mas tenho visto coisas...
invento tolas teorias visionárias.
Mas quem dá ouvidos a uma míope?

Ouço
que tu me ouves.
Mas será apenas o silêncio
da indiferença que eu cismei ser teu ouvido?
Ai, que desgosto...

Degusto
teu paladar-me faz mal -
me fere as entranhas
(maldita gastrite)
Quem manda em mim é o meu nariz.

Cheiro
teu farejar distante.
Cachorros sentem a fêmea num raio de 2 Km (nem se vêem!).
Por isso não te dou as costas.
Ninguém se toca!

Toco
apenas esse piano desafinado.
Você não está, não quero sentir mais nada.
O que os olhos não vêem...
(da capo)


Minha lista de desejos?

- DVDs de ópera. Podem ser comprados em bancas de revista por 19,90. Baratinhos, nos ajudam a compreender a arte do canto lírico, curam problemas de insônia, de auto-estima também (geralmente os cantores são feios que dói, e se não são feios fazem caretas medonhas), além de serem ótimos para impressionar as visitas.

- Dostoiévsky. Completinho (calafrios percorrem-me a espinha)

- Herdando uma Biblioteca - Miguel Sanches Neto. Fiquei chocada com a descrição do livro, que descreve minha própria vida como um espelho, exceto pelo pobre destino de crítico literário do menino. Eu já surrupiei livro de várias bibliotecas. Será que Sanches Neto descobriu? Fiquei com medo e não tive coragem de comprar. Mentira, é só que ainda não tive tempo nem dinheiro mesmo, hehehe! Alguém me dê esse livro antes que eu o furte!

- Amendoins confeitados - saco de 1kg. Adoro isso!

15.12.05

Recados

Muito próximo

A mim basta culpar-me por uma alegria
sem de fato a tocar.
Basta ter um canto sujo na alheia poesia;
não faço alarde.

Basta que encontre alguns devaneios
lendo Cortázar.
Ou que imagine impossíveis anseios
para um fim de tarde.

Basta apenas ver minha malícia ignota
em brumas, malograr.
Desejar que queime sem-fim o que brota
da nossa carne.

Dancem, dancem, porque a mim somente basta
um demente sussurrar
E quando descobrirem que o tempo os arrasta,
não terei parte.

Dos meus erros o mais belo a infernizar:
a virgem casta.
Basta que o meu próprio mal me farte.
E, sobretudo, basta!

Mural

- Fah, você tem estado sempre por perto, mas eu nunca consigo te ver. Afinal, você está com blog? Algum lugar onde eu possa dizer: "concordo, um beijão!"?

- Senhor gastroenterologista. Seja gentil, pontual, evite piadas de mau gosto. O senhor tem pacientes com gastrite nervosa a tratar.

- Edu, este blog só sobrevive porque eu guardo sempre uma dorzinha de estimação, dessas que não se segredam. O resultado é este estilo meio obscuro-enigmático-nó-em-pingo-d´água, que é um saco, mas rende...

9.12.05

Intrigantes

Eu passo, tu passas...

Você está se achando, né?
Você está podendo, né?
Você está descobrindo-se no Olimpo.
Você está banhando-se num mar morto cor-de-rosa.
Você está crendo em flores noturnas.
Você está roubando o que é seu.
Porém, você está.
Não esqueça disso.
Vá estudar sintaxe verbal e não me amole.

Música

Deve haver algum significado no fato de que a diferença entre música triste e música romântica é bem sutil, principalmente se desconsiderarmos a letra. Quer coisa mais romântica que "I get along without you" sem letra? Quer coisa mais deprimente que qualquer música da Celine Dion? Vixe!
O melhor é que uma sonata de Mozart acaba com tudo isso de uma vez só.

Dúvida

Por que um sorriso casual de alguém desconhecido atravessando a faixa de pedestres, às vezes, pode nos deixar tristes o resto do dia?

5.12.05

Incofenssáveis

Uma dívida bem paga

Era seu grande amigo Nestor. Tinha-lhe um amor tão grande que precisava cumprir a promessa e ir lá visitá-lo. Mas por que ele tinha que morar tão longe? Por que tinha que ter ido embora? Não importava mais. Era seu grande amigo e tinha que cumprir a promessa de ir visitá-lo, afinal já fazia quase quinze anos! Fez duras economias, passou alguma necessidade até, vendeu uns bons CDs, desfez-se dos seus Dostoiévskys, ficou devendo duas ou três contas e as Casas Bahia levaram seu som embora. Mas empenhou o relógio de ouro do pai e comprou a passagem. Do aeroporto até a casa do Nestor foi um suplício. Por que tinha de ser uma viagem tão desagradável? Poltronas apertadas, crianças birrentas, vôos atrasados, e a comida lhe fez mal a ponto dele querer arrancar os próprios intestinos. Já na casa do amigo - ah, o Nestor - nada mais voltava a importar. Depois das saudações iniciais e álbuns de fotos não restou muito para conversar. Então assistiram filmes e foram ao teatro ver uma peça, muito ruim por sinal. Passaram num restaurante onde comeu pessimamente e antes de dormir seu amigo lhe contou histórias enfadonhas entrecortadas por piadas insossas que lhe causaram caimbras nas bochechas e espasmos no supercílio esquerdo devido ao esforço para manter uma feição mais ou menos sorridente e surpresa.
Dormiu mal, sonhou que era perseguido por uma cadeira de balanço assassina. No outro dia voltou pra casa com o peito aliviado, a placidez de quemtem o dever cumprido. Nunca mais viu o Nestor outra vez.

Terríveis instintos


Prazer inebriante: xingar um desafeto. Nem precisa lhe ser dirigido diretamente, apenas soar. Pode ter baixo potencial ofensivo, desde que acerte a ferida. Tem que ser dito com calma e bom humor, olhando de cima. E parecer inteligente para que achem que você não perdeu a razão - e ainda te dêem razão.
Um xingamento preciso e elegante vale por um bifinho (no olho do desafeto).