12.6.09
Tristeza de uma tulipa num campo de girassóis holográficos
Às vezes chega-se a ver, enfim, o brilho de um amor que conseguiu cristalizar-se. Mas pode ser que, nesse instante, se descubra que aquele brilho é apenas a ilusão concreta de uma estrela que já morreu há muito tempo.
11.6.09
Problema
O problema é que, ora bolas, quem vai se ocupar de me estudar?
10.6.09
Enganos
A psicóloga, felizmente, era muito simpática e o acolheu bem disposta. Fez algumas perguntas genéricas e em certo momento momento questionou sobre o que o incomoava particularmente naquele dia. Ele pensou um pouco e lembrou-se de um incidente chato. Há algum tempo ele fizera amizade com um funcionário novo na empresa, e costumava conversar com ele sobre livros, música e restaurantes quando tinham uma folga ou na hora do almoço. Embora só fizesse poucos meses que conviviam havia respeito e admiração entre eles. Até que o novato começou a conversar com outro colega, que era supervisor de ambos. Percebeu que agora o colega preferia ir almoçar com o supervisor. De uns tempos para cá começou a falar-lhe apenas monosilabicamente, evitando conversas mais longas... parecia estar fugindo. Nos últimos dias estava decididamente frio, sem motivo algum que o justificasse. E naquele dia em particular percebeu, quando fora ao bebedouro, que o colega e o supervisor olhavam pra ele e sorriam jocosamente. Isso o irritou bastante. Lembrou que não era a primeira vez que isso acontecia: começava uma amizade com alguém então outra pessoa aparecia do nada, inventava conversas para denegrir sua imagem e reputação, e acabava com a amizade nascente assim, de forma covarde, sem dar chance para defesa, sem permitir esclarecer as mentiras que falavam dele.
A psicóloga ouviu a tudo e ao final já era mesmo hora de ir embora.
Ele voltou na semana seguinte e depois nunca mais. Percebeu que a psicóloga já não o acolhera com tanta disposição e seu olhar tinha algo de estranho, de escarnecedor enquanto o ouvia. Claro, isso acontecera depois que ele vira a recepcionista maldita conversando com ela, logo depois dele sair da primeira consulta.
Agora tinha certeza: devia mesmo ter comprado um aquário ao invés de procurar ajuda psicológica.
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Ela sempre encarou o fato como algo místico. Todas as vezes que ele ligava ela estava, pouco antes, pensando dele. E era mesmo incrível! A princípio tomou por coincidência, mas começou a acontecer com tanta frequência que ela passou a ver isso como um sinal divino, uma confirmação de que algo muito especial os unia, um elo além do palpável, um sentimento que ligava suas almas. O problema é que as ligações dele começaram a rarear. Ela entendeu que ele estava muito ocupado, cheio de problemas para resolver... uma fase difícil. Ainda assim, quando ligava, era batata: ela tinha acabado de pensar nele naquele instante. Um dia ela se deu conta que fazia uns seis meses que ele não ligava. E por mais que se esforçasse para mandar mensagens telepáticas de amor, ele parecia não responder... devia estar ouvindo mas estava impedido de responder. Chegou a averiguar se nenhum acidente grave o acometera. Por fim, pegou um ônibus e foi até a cidade dele, que ficava distante uns 300 quilômetros.
Encontrou-o bem, feliz, com bastante saúde. Mas não a convidou para entrar. Estava de saída e iria passar o dia inteiro na Universidade resolvendo problemas.
Ela sorriu amarelo, recusou a carona de volta à rodoviária e procurou a praça mais próxima onde pudesse descansar as pernas e a mente. Lá, olhando um chafariz, ela se deu conta:
Nunca estiveram unidos. A verdade é que nesse tempo todo ela nunca deixara de pensar nele um único minuto de seus dias. Por isso, qualquer que fosse o momento que ele ligasse, ela teria sempre acabado de pensar enele. E se ligasse no meio da madrugada, ela teria acabado de sonhar com ele porque, Deus do Céu, ela sonhava com ele todas as noites. Mesmo se ele ligasse quando ela estivesse ocupada com algo muito massante, como lavar uma louça ou corrigir provas de biologia, ela teria pensando nele: encontrava motivos para lembrar dele nas coisas mais improváveis, como bolhas de sabão, a fluidez transparente do sabão líquindo, ou caligrafias e rasuras sobre um papel.
Então era isso, nunca houvera magia. Nem amor correspondido. Um delírio interminável? Uma doença sem trégua? Uma compulsão faminta? Importava agora era o que fazer com aquele vazio.
7.6.09
Vaca profana
Eu entenderia um jornalista que faz isso por dinheiro, mas alguém que se dedica a isso como a um sacerdócio, um passatempo, um... lazer?
Divertir-se sendo útil e formal. Oh, Deus, nada me parece mais terrivelmente difícil para alguém que lida com a palavra.
Mas isso sou apenas eu.
1.4.09
Como funcionam meus blogs
CÉU E LUZ - É o blog que criei para falar sobre casamento e vida a dois. Tá muito desatualizado mas não é por falta de assunto ou vontade. É que diante da atual conjuntura ele acaba ficando relegado ao último da fila. Aliás, exatamente o que se costuma fazer com o casamento diante de conjunturas muito estressantes.
MATERNALMENTE - Onde escrevo sobre minha experiência e reflexões maternais. Porque não achei legal misturar as coisas, só lê quem gosta de crianças ou tem interesse no assunto, assim não corro o risco de me tornar chata. Começou no antigo PEQUENINA LUZ (no blog-se), quando eu ainda alimentava o sonho de ser mãe, continuou com o SITE DA GRAVIDEZ de Vinícius, onde postei todo o processo de esperá-lo (foi divertido!). Não atualizo muito mas é onde eu mais tenho gostado de escrever. Exatamente como na vida real: é sobre o meu filho que mais gosto de falar.
MATEUS DEZ, VERSO OITO - É meu blog de devocionais. Tenho uma grande necesidade de meditar sobre temas espirituais e isso quase sempre rende textos. Que quase ninguém lê -às vezes ninguém mesmo - , mas enfim, sempre soube que sou eu quem mais ganho ao escrevê-los. Tenho andado meio desmotivada pela falta de certeza quanto a necessidade de tonar públicas minhas reflexões nesse sentido. Elas nem sempre são ortodoxas. Quase nunca interessantes. E detestam ser moldadas (nesse mundo virtual de tanta informação é preciso moldar um texto a fim de agradar aos leitores, mas entre cansá-los e eu me cansar, prefiro meus textos crus). É um lugar onde, apesar de tudo, gosto de estar. Exatamente como na igreja.
ANO BÍBLICO - A proposta é muito boa (na minha opinião de primeira beneficiada): um lugar onde escrever depois de ler capítulos da Bíblia até terminar de ler tudo. Deixou de ser atualizado há tempos. Nunca empolgou ninguém. Precisa ser retomado com paixão, exatamente como minha vida devocional.
TODA LUZ - Sua origem é o antigo ÓRBITA, meu primeiro blog, criado ainda no webloger. É onde escrevo quando estou deprimida ou quase. Não é proposital, é que o tipo de texto que considero próprio para este blog só me ocorre quando estou nessas condições emocionais. Então acabo utilizando-o como "elemento catártico". Exatamente como um divã se eu tivesse saco para ir num terapeuta. Por isso, meus dois leitores... não fiquem tão felizes de me ver por aqui.
E assim vou vagando...
Ainda tenho vontade de criar um BLOG DE MUSICALIZAÇÃO, falando sobre idéias e experiências de ensinar música, um BLOG SOBRE MÚSICA, com posts só com divagações sobre a forma como certas músicas me tocam, um BLOG DE POESIAS, muito próximo ao da Starlight, que acho lindo, um BLOG SOCIAL, com posts sobre formas de melhorar o mundo (isso é mais difícil que julga nossa vã boa vontade) e ainda um BLOG CONJUNTO com o Marcão, a Dani e o Edu. Se você tinha qualquer dúvida quanto a Lux ter uma personalidade obsessivo-compulsiva...
27.3.09
Cultura de verbetes
Discussão sobre direitos autorais à parte, nos últimos meses tenho baixado muito material para dar aulas de música. E o que consegui até agora, acredito, já daria para começar uma escola de música, da educação infantil ao nível técnico. Impressionante ao ponto de ficar angustiante. Dia desses desisti de procurar mais, porque sempre encontro mais, e mais, e mais, aff, me sinto sufocada, não há HD que chegue para tanta informação. A maior prova são os próprios HDs. Em 2000 eu tive um HD de 5GB de memória. Hoje, menos de dez anos depois, um pen drive de 8GB não comporta o volume dos meus arquivos temporários. Meu HD de 250GB já é mega(giga?)-ultrapassado. Se os HDs custam a acompanhar a crescente oferta de informação, o que dizer de nossas cabeças? Aí que entra a angústia. Eu não consigo dar conta de ouvir todos os meus mp3. Não consigo ler todos os meus e-books. Mais que isso, não consigo degustá-los. Uma música de Debussy, por exemplo, merece ser ouvida várias vezes, para que se sinta o sabor dela, para que ela fale a você em diferentes estados de espírito, em vários detalhes da partitura e da sonoridade, e em cada nova audição mostre uma face de si. Mas como eu posso ouvir tão lentamente uma música se tenho a discografia completa - de Debussy e de mais 300 compositores, só pra falar dos eruditos - à espera de ser ouvida também? A pergunta de fato é: o quanto estamos ganhando em CONHECIMENTO com tanta INFORMAÇÃO? O volume de dados com que tenho contato me permite aprofundar algo? Ou apenas me tornar uma esp
écie de ser enciclopédico, que venceria qualquer show de perguntas e respostas mas não constrói nada significativo na vida? (como o personagem do Morgan Freeman em "Antes de Partir").Já deve haver muito doutorando trabalhando nisso, ademais, pensar sobre o tema só me angustia mais e mais. Pergunto-me ainda: o que são várias informações juntas? Matéria-prima para o crescimento humano. O que são várias informações juntas ocupando muito espaço no HD e pouco espaço de reflexão? Caos. Você não é capaz de reencontrar a informação uma vez acessada mas superficialmente tocada. Sabe apenas que viu algo em algum lugar...e isso se confude com outras tantas informações mal percebidas, que formam uma massa de inutilidade intelectual.
Há ainda um fenômeno social resultante desse "boom" de informações. Antigamente, quando alguém me dava um livro ou um CD eu vibrava. Livros e CDs eram algo precioso, algo que tinha que se economizar algumas mesadas para ter. Hoje as pessoas não parecem ficar muito felizes se você oferece links para livros e CDs. Elas podem conseguir isso facilmente no rapidshare, não precisam de você para isso, se quiserem algo vão elas mesmas procurar. Livros e CDs se banalizaram, são apenas mais informação no HD. Oh, por favor, dê-me uns minutos de atenção no MSN mas não me faça fazer mais um download!
Lembro do tempo que eu e uns amigos tínhamos um site que se propunha a divulgar literatura. Era muito comum receber e-mails de pessoas pedindo "resumos" de livros para trabalhos escolares ou vestibulares. Mesmo no meio acadêmico virtual as "coletâneas" fazem sucesso, porque são o resultado de horas de análise de algum bobo que fez o trabalho sujo de ouvir/ver tudo e selecionar o (suposto) melhor. No momento eu estou fazendo este papel de boba. Juntei tudo que baixei até agora para minhas aulas de música e estou classificando cada arquivo, um por um, de um mísero mp3 até livros completos. Analiso, classifico e listo para consulta, a fim de facilitar meus planos de aula. Ou seja, estou endoidando. Quando termina o dia meu cérebro está cozido, borbulhante como mussarela saída do forno. Ainda assim minha análise é superficial. Me vejo querendo fazer o trabalho de uma vida (catalogar 600 CDs e 1200 livros) em um mês. Então me dou conta da extensão de nossa gorda ignorância: falta-nos vida.
Um abraço no meu filho me traz de volta à tona.
23.3.09
Pietá
Não eram lágrimas apenas. Seus lábios tremiam. A face toda convulsionava. Embora em silêncio, sua dor transparecia aguda. E ela tinha os olhos inchados abaixados, por isso não viu Enzo e suas sacolas passarem na sua frente. Depois de um curto momento de espera ela enfim acordou no torpor e pegou o dinheiro. Felizmente já estava trocado. Enzo continuou ônibus a dentro, esbarrando em duas ou três pessoas que lhe olharam atravessado. Conseguiu, no entnato, um banco perto da porta, onde acomodou-se com grande habilidade ao lado de uma velhinha gentil, que fastou para o canto dando espaço para as sacolas gigantescas.
Enzo suspirou. No banco da frente duas adolescentes gargalhavam a respeito de um assunto qualquer, alheias à dor da cobradora. Ele procurou nomearo sentimento que agora lhe incdia. Era apenas alívio por poder descansar? Um prazer melancólico de sentir o vento poluído batendo-lhe na face? Não, era algo mais. Mas não era compaixão. Quando as adolescentes pararam de gargalhar por um segundo, ele concentrou-se no bico do seu tênis e encontrou a resposta. Era admiração. Como parecem dignas as pessoas que sofrem. Não importam que sejam boas ou más, um ser humano sofrendo é estranhamento belo, maduro, imponente. Seria esse o magnetismo da Pietá?
De repente o riso das adolescentes soou escarnecedor aos ouvidos de Enzo. Todos os sorrisos do mundo lhe soariam escarnecedores naquele momento. Até um bebê sorrindo seria uma afronta num mundo onde alguém sofre. O sofrimento esmagava o riso com a força de um caixão coberto de flores. Enzo sentiu as mãos doerem. Uma leve dormência lhe percorreu o corpo. A velhinha ao seu lado soltou um grito abafado de horror. Enzo virou uma estátua de mármore. Sobre as mãos, enormes sacolas tristes.
11.3.09
Drama em 5 versos brancos (por pura preguiça)
Ela bebeu sua areia,
chorou, chorou
e voltou
ao pó.
11.2.09
Romântica
Nossa, nunca mais eu tinha feito esses "testes de personalidade", desde o meu antigo blog "Órbita". Vi no da Lucy e achei um barato!
Take the Quiz here!
"You are Marianne Dashwood of Sense & Sensibility! You are impulsive, romantic, impatient, and perhaps a bit too brutally honest. You enjoy romantic poetry and novels, and play the pianoforte beautifully. To boot, your singing voice is captivating. You feel deeply, and love passionately."
hahahhahah gostei dessas palavras.
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Então ela decidiu: era o ponto final no romance. A carta, honesta e sóbria, não deixava dúvidas quanto a seu desejo de transformar toda aquela paixão vermelho-sangue em cores suaves. E seria até fácil achar que foi a melhor decisão não fosse o fato de ter sonhado com ele logo depois de ter mandado a carta. É claro, de agora em diante seriam apenas amigos distantes. Mas o sonho lhe trouxe a face dele, não a face perturbada que vira da última vez, mas uma fisionomia leve, sorridente. E com a face, aquele cheiro herbal que fazia seu paladar adivinhar uma pele doce. Não lembrava exatamente o que sonhara, apenas da imagem dele. Adormeceu ouvindo Mozart, talvez tenha sido isso. "Oh, Deus, porque me sorria daquele jeito? Certamente não pela carta que mandei. Por que me amava com aquele sorriso?". Começou a escrever-lhe outra carta menos fria, menos forte, falando agora de seus sentimentos ao invés de suas decisões racionais. Abandonou o lápis sobre a mesa.
Sobre a folha branca podia ver melhor: o lápis era de um vermelho suave.
2.2.09
Um velho poema
Tudo passará, eu sei
Mas há aquelas coisas
que não se resolvem logo.
É preciso que passem sobre elas
algumas luas
alguns sóis
algumas telhas sobre o teto
que você contempla
enquanto tenta dormir.
Há algumas que parecem amargura
mas se você olhar bem
verá que são apenas medo
de fracassar
de novo
com o amor.
O amor que você quer
acreditar que tem e que domina,
o amor que você não quer
que passe
frio
sobre você
como as telhas sobre o teto
que você contempla
enquanto tenta dormir.
(Coisas tão íntimas
que você não é capaz de confessar
para si mesmo:
nem que existem,
nem que te aborrecem,
nem que te invadem
em noites insones
parecendo cada vez mais fortes.)
Se, no entanto,
você detiver metade do seu terror
que a noite faz parecer maior,
perceberá que não precisa
lutar contra a fortaleza
das coisas que hoje perturbam.
Só precisa deixar que elas se acomodem
serenamente
dentro de você.
Toda a balbúrdia
de sentimentos inflamados
não são sons dos seus medos
mas grunhidos de você
querendo arancá-los a custo.
Guarde-se com eles
numa mem´roia pacífica,
numa calma digna
de quem acredita que perdoar
o outro
é só mais um caminho
para perdoar-se.
Deixe que o tempo passe
sem pressa
e se acumule levemente em sua face,
nas escadarias,
e nas telhas sobre o teto
que você contempla
enquanto dorme.
Seus olhos fechados veem
ainda
com mais nitidez
um teto onde cabe o universo.
E nos seus sonhos
você continua olhando para cima.
No seus sonhos, livre,
você será o tempo,
será brisa,
que arrasta vozes
e não teme a tormenta
pois sabe que em breve
ela também passará.
Tudo passará, eu sei,
mas antes que tudo passe
deixe que tudo fique
bem.
30.1.09
Simples
Se você quiser, eu me preocupo com você.
Se você não quiser, eu não me preocupo mais com você.
Simples assim, e a vida conserva sua face fresca em flor.
Espero que fique bem.
27.1.09
Proust
Eu deveria ter terminado o post aí em cima, mas tenho que escrever algo sobre esse livro: excelente. É uma espécie de literatura de auto-ajuda para quem ama literatura e odeia o gênero auto-ajuda. Inclassificável como é típido do estilo de Alain de Botton, é divertido e fácil de ler mas muito profundo em suas reflexões, que me aproximaram mais de Proust e de mim mesma: me descobri uma discípula mesmo sem ter conseguido chegar à metade do Caminho de Swann. Mas deu vontade de colocar os tênis de novo... ao lado de Proust sinto-me tão livre para ser pessimista, prolixa, sentimental, detalhista, estranha, intimista, ácida e dolente e tudo o mais do que sempre tive raiva em minha escrita. Quero seguir pelo caminho de Swann até onde não existam casas nem pintassilgos.21.1.09
é o que lhe vale
Para evitar que o rancor
suas ervas espalhe."
E não é que eu ganhei um concurso literário em 2003 e não sabia? Ou sabia e esqueci? Não sei mesmo, de verdade. Obrigada a Sam que me deu ciência do fato de um livro estar circulando com meus poemas por aí e eu não ter a mínima idéia disso, hehehhe.
Sim, há muitas coisas boas para contar. Por que os jornais e este blog não o fazem? Talvez eu deva aprender a esculpir ao invés de escrever, e me acostume assim a revelar a beleza que há pedras e não a contar de como elas pendem sobre minha cabeça.
14.1.09
Surpresas
O dito cujo soneto mesmo eu classifiquei como "adolescente" com o mais pejorativo dos significados. A temática é a entrega do Amor. Mas quanto do amor eu conhecia então? Exaltava uma entrega absoluta sem saber que o amor sobrevive mesmo quando guarda parte de si. Não precisa se esconder, mas também não ganha quando gasta toda a sua luz revelando-se inteiro e nu. Ah, mas porque vocês acham que dizem por aí que o Amor é cego? Quem ama acaba quase sempre mariposamente apaixonado pela luz que emana do próprio amor. E se o Sol não poupa retinas que nele se detém, o Amor também não perdoa a quem quer mergulhar inteiro em sua luz. E depois da cegueira o que vem? Escuridão, amiga, escuridão...
Pensando nisso, acho que agora sei porque depois de casada não escrevi mais poemas (ou não os revelei).
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7.8.08
Perda
1- Descobrir que Papai Noel não existe. Minha professora tinha prometido que ele deixaria um presente embaixo da cama, e eu não encontrei nada lá.
2 - Conhecer a traição. O primeiro chifre a gente nunca esquece.
3 - Descobrir que, não importa o quanto isso te incomode, há pessoas que não fazem a coisa certa porque não querem fazer a coisa certa. Escolhem fazer o errado e se sentem bem assim. Você não conseguirá convencê-las a sentir o contrário.
4, saída do forno - Descobrir que nem todo mundo a que você chama de amigo acha, de fato, que é seu amigo também. Não se pode sair por aí amando qualquer pessoa. Há gente que não quer ser amada, que não quer ser seu amigo, e você tem que aceitar isso, simplesmente.
12.3.07
Vírgula

9.1.07
Più soave
Em Dezembro descobri que estou grávida. E isso, além das mudanças hormonais e logísticas comumente envolvidas, trouxe algo de mais profundo, uma espécie de reencontro comigo, ou com o Eu que eu julgava descansando, "deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz d eum céu profundo". Sem a licença poética, o Eu que eu julgava simplesmente atolado em meio à rotina de caos e gozo cotidiano.Mas veio a gravidez. E com ela uma fertilidade de poesia também. Desde então têm me ocorrido muito material para desenvolver aqui e nos meus outros blogs. Mas as mãos ainda estão destreinadas. Ainda estou me readaptando a ter esse teclado falando por mim, e deixar os pensamentos sairem assim, livres, quase "psicografados" (o Eu atolado geme e convulsiona por existir).
Já tenho escrito e lido bastante sobre gravidez e bebês: esse é um tema que mesmo antes de minha condição já me interessava bastante, pois é com o que pretendo trabalhar o resto da vida, dentro da minha área profissional, que é a música. Mas a alma clama por uma poesia mais ampla.
Esse clamor, no entanto está diferente também. Tenho tido muito mais paciência com minhas idéias (eis o motivo de perder tantas, idéias costumam ser temperamentais, não gostam de esperar para um chazinho). Não corro mais atrás das idéias, não me desespero para pegá-las na frágil teia da psiquê que o vento insiste em desfazer para tornar a jogá-las no ar. Tenho tido mais paciência em viver.
A última semana, por exemplo, passei-a inteira sem fazer quase nada, e quem me conhece sabe que isso é totalmente atípico, especialmente nas férias, muito mais se eu estiver em casa. Já tinha "gastado" uma semana em Muriú, apenas contemplando a natureza, dormindo e tomando banho de lagoa. Daí volto com a minha mãe e todo o aparato de idéias gritantes, agoniadas, projetos ardentes, palavras ansiosas, tudo foi solenemente deixado de lado só para eu curtir melhor esta semana junto à minha mãe. Quase não saímos. Pegamos acerolas no pé, no quintal. Conversamos sobre quase tudo, assistimos TV, fomos jutnas fazer minha primeira ultrassonografia. Fizemos comida juntas, jantamos fora uma vez, levei-a para conhecer comida chinesa. Não morremos de rir, mas nos divertimos. Mais precisamente nos alegramos com a presença uma da outra, e isso nos fez felizes.
Em alguns momentos a impaciência quis voltar e me dizer que as férias vão acabar sem que eu tenha feito absoltuamente nada do que queria, e que já esqueci metade das idéias que poderia ter desenvolvido em prol do meu Eu. Mas que Eu? Tenho rsistido mais à essa visão repartida de mim, e pensado que Eu sou o que sou agora. Tudo o mais é vaga suposição. Esses dias de dedicar-me inteiramente a alguém não me fazem menos humana ou importante, pelo contrário, o tempo que dedido às pessoas, mesmo que aparentemente sem nenhum intento especial, é ainda assim mais valoroso que o tempo que gasto comigo e minhas idéias, por mais bela squ eelas possam me parecer. A beleza, enfim, está muito mais em viver que registrar a vida, embora fazer os dois seja o meu ideal (e de cada escritor frustrado da face da Terra).
Estou com muita saudade daqui. Quero voltar a escrever da essência que cobre este lugar. Ela ainda está aqui, creia. Obrigada a todos que deixaram recadinhos carinhosos: vocês não são apenas gentis, são raios de luz.
E assim, sem recomeços, eu principio. 2007 será um ano fértil para todos nós.
23.8.06
Do que alguém pensou por mim
Do Blog-pensador César Miranda, no último post do seu finado Pró-tensão.
E é isso mesmo.
8.8.06
Dói
Engano
Quando abriu o e-mail não estava muito bem. Tinha dormindo pouco. Estava com TPM. Tinha brigado com o marido, a empregada e o cachorro. Não tinha tomado café. E outras pequenas fatalidades de segunda-feira de manhã.
Talvez por isso ficou particularmente sensibilizada por uma mensagem genérica, repassada, dessas que tantas vezes deleta sem sequer abrir. Nem prestou atenção à mensagem, devia ser qualquer coisa bonitinha e impressoal, apenas. Foi a remetente, Patrícia, que lhe chamou atenção. Seu nome a fez lembrar de uma coloca da faculdade, com quem já não falava há alguns anos, mas cuja memória lhe deixara uma marca agradável e ensolarada. Não costuamava sentir nostalgia quando o assunto era a faculdae, mas de repente se viu envolvida por uma saudade carinhosa daquela colega, com quem, embora não tivesse muita intimidade, tinha vivido uns poucos, amenos e bons momentos naquele período. Resolveu responder.
Começou com uma saudação simpática, relembrando o apelido da colega. Depois escreveu umas cinco ou seis linhas falando de sua saudade, do desejo de saber como ela estava, perguntando por sua família e trabalho, enfim, se esforçando por trançar os fios soltos daquela amizade.
Recebeu a resposta apenas algumas horas depois. Também começava com uma saudação simpática. Mas a seguir esclarecia que não era a Patrícia em questão. Terminava com um xingamento carinhoso, observando que na verdade "esta Patrícia" era uma amiga do marido dela que jantou com eles no fim-de-semana passado.
Certo. Ela deveria ter atentado para o fato de que não havia sobrenome. Podia ser qualquer Patrícia do mundo. O que a levou a ter certeza que estava falando com a Patrícia da faculdade? Quantos outros enganos teria cometido na percepção de sua própria realidade? Quantos também estariam enganados quanto a sua real identidade? Foi passar um mês no México, sozinha, um mês depois do acontecido.
Coleções
Às vezes, só às vezes, eu acho que vai acabar chegando o dia em que as coleções acabarão. É que as coisas raras e únicas estão cada vez mais raras e únicas. Todos os dias, uma coisa rara e única perde esse status por causa da tecnologia. Até que ponto pode-se dizer que uma obra de Bach ou Van Gogh é rara e única se eu posso acessar seu conteúdo artístico de qualquer lugar do mundo pela internet? Aquele impacto de ver algo precioso pela primeira vez tem se tornado impraticável com nosso atual nível e velocidade de informação. Parece que com cinco anos um ser urbano já viu tudo que tinha pra ver neste mundão de meu Deus. Pode, no máximo, gozar de um contato mais próximo com o precioso, como ver o original de Van Gogh, que ele tem pendurado na sala de estudos e comprou numa loja de importados chineses. Mas, cara, não é a mesma coisa. Quem pode se lembrar da primeira vez que viu algo de Van Gogh? E como eu vou esperar pra ver um aorquestra de câmara executar certa obra de Bach, para eu ouví-la pela primeira vez, se tenho um mp3 aqui ao alcance das minhas mãos?
Pensei nisso porque acabei de baixar cerca de 35 CDs/vinis em cerca de seis horas de uma procura descuidada no orkut por música sinfantis. E aí baixei d etudo: desde Plunct Plact Zum até o mais recente CD do Palavra Cantada. Discussões sobre direitos autorais à parte (discussão muito chata, por sinal), fiquei encantada e horrorizada com isso. Então aqueles discos do balão mágico, que até pouco tempo atrás eu teria que ir catar em vários sebos, e arranjar uma vitrola pra tocar, estão todos aqui, na net? A Coleção Disquinho, que eu precisaria de uns dez anos pra encontrar toda, viajando talvez até pra outros estados a fim de garimpar, tá todinha no rapidshare, com capa e tudo? Sacrilégio! Parece que um pouco da santidade, essa áurea que envolve tudo que é raro, desaparece.
Às, vezes, só às vezes, tenho a impressão que há cada vez menos espaço para o raro e único. Só existe quando ele é sinônimo de status. Quando é sinônimo de devoção, parece ser meio rejeitado... nós não temos tempo a perder. Estamos muito ocupados, céticos, bem informados, esclarecidos, bem servidos, satisfeitos. Estamos saturados pelo grande. O que é raro e único é intruso intruso perigoso, pois pode indicar o vazio dentro da nossa enormidade oca.
Uma caso para Dostoiévski
Até queria ser otimista, mas todos os dias quando colocava o pé fora de casa via do outro lado da rua uma velha pedinte envolta em trapos sujos, que lhe sorria com os cacos de dentes. O problema é que ele realmente queria ser um homem otimista, capaz de acreditar no mundo como um lugar bom, promissor, fascinante e feliz. De madrugada foi até a velha e deu dois tiros na cabeça dela.
12.7.06
Cativo
Por isso gastava tantas horas na janela. Não podia ir brincar na rua, os pais pediram. Explicaram até, e mais uma vez ele não conseguiu entender muito bem. Algo sobre perigo. Mas o perigo também estava dentro de casa, foi o que lhe disseram quando começou a descobrir as tomadas elétricas e o fogo. O perigo da rua, no entanto, empalidecia os pais de um jeito que o fogo nunca parecera capaz de fazer. Por isso encostava a testa nas grades da sala e olhava por entre as pequenas frestas do portão... a rua. Que só encontrava num poucos momentos mágicos, o coração aos pulos, as pernas inseguras.
Por isso achou estranho quando aqueles dois homens o levaram para passear mais longe depois da aula. Disseram que seus pais tinham viajado, que iriam cuidar dele até os pais voltarem. Ficou triste mas lembrou de outros lugares aonde os pais não lhe levavam, normalmente quando se arrumavam e perfumavam da forma mais fantástica e a mãe parecia brilhar. Quando iam chegar tarde ou ir ao trabalho. Mas eles sempre voltavam, iam voltar agora também, acreditava.
Dois meses passaram e ele ainda estava naquela casa com os dois homens. A comida não era muito boa, mas ele podia tomar refrigerante sempre que queria e jogar video game o dia todo. Os homens eram sérios mas nunca gritavam com ele, e de vez em quando traziam presentes, roupas, até uma camiseta do homem-aranha. Os móveis, os barulhos, os cheiros eram diferentes, mas algo igual dava-lhe um grande senso de familiariedade: não podia ir pra rua. Também disseram que ali havia perigo. E da janela da sala continuava a contemplação dos passantes, dos meninos que, ali, pareciam ir mais à rua que em seu bairro. Devia ser porque ali era menos perigoso. Uma vez até ficou na torcida quando eles resolveram jogar bola em frente a sua janela. Decorou o nome de uns três, que vez ou outra lhe acenaram um sorriso. Nunca teve tanta vontade de ir pra rua. Mas as regras eram claras, os pais haviam pedido, agora os dois homens também: na rua não, é perigoso.
No começo sentia falta de seus brinquedos. Depois se acostumou porque olhar a rua era mais interessante naquele lugar, a rua parecia mais viva, e outros meninos estavam começando a se aproximar, coisa que nunca aconteceu em sua casa.
Então escutou um barulho forte. Vozes gritando, coisas caindo, alguém abriu a porta de seu quarto violentamente. Correu em sua direção e o arrastou para fora. Ele ficou assutado, começou a chorar. Viu os dois homens deitados no chão. Depois foi para dentro de um carro de polícia (tinha um em miniatura em casa) e o policial olhou bem em seus olhos quando disse:
- Não precisa chorar mais. Vamos levar você pra casa e prender esses bandidos.
Não entendeu de novo. Mas explicou direitinho como chegar em casa depois que passaram pela avenida larga que ía dar no seu colégio.
Depois que chegou em casa os pais lhe disseram chorando que aqueles dois homens eram maus. Não pareciam maus. Mas quando falou isso os pais choraram mais. Então ficou em silêncio apenas ouvindo eles dizerem que fora sequestrado.
Depois disso a mãe o proibiu de ir à janela. Pouco tempo depois o pai comprou outra casa, com um muro alto demais pra deixar ver a rua. Ganhou muitos brinquedos e um passeio a mais nas quartas-feiras, para ver uma moça de nome esquisito: Terapeuta. Em casa, tinha medo de olhar para o muro e entristecer os pais. De vez em quando, porém, sentia uma vontade muito forte de ver se tinha algum menino esperando por ele do outro lado...
(baseado em tristes fatos reais)
15.6.06
Uma nota de perdão para Hellcife
Há brisa, frescor,
noites de chuva
para abraços mais dados,
manhãs suaves,
para aconchegar uma preguicinha,
tardes mornas
com um tipo de luz crepuscular
refletida em nuvens plúmbeas
que resultam num céu lindo como eu jamais vi em nenhum outro lugar.
Há uma beleza inaudita.
Tudo é perfeito:
até um bem-te-vi
se aventura no meu quintal enquanto escrevo.
Escrevo.
Tudo é perfeito.
É mais fácil amar em Recife
quando é junho.
Eu poderia até amá-la,
mas não sei...
Às vezes
(quase sempre)
a beleza basta
e prescinde o amor.
(Foto do bem-te-vi tímido que apareceu no meu quintal e ficou olhando para mim enquanto eu escrevia. Ficou bem longe, o bichinho, não rendeu uma boa foto, mas causou um poema)
27.4.06
Conselho
apenas
não fique em casa
de jeito nenhum.

(fotos do último fim de semana em Muriú - Natal - RN)
8.4.06
Reminiscências - pra que o peito não rebente
Detesto calor. Sonho em morar num lugar frio. Mas uma das minhas lembranças mais queridas e a do sol beijando minha face, do sol queimando minha face levemente. Suar é horível. Mas ter a face queimada por um sol que nasce ou que morre é a sensação mais aprazível que o nordeste me legou.
Gênio da lâmpada
Apenas um pedido: devolução de todas as idéias que não anotei por achar que me lembraria depois.
Pode só mais um? Os posts perdidos na net que não tive paciência de reescrever. Isso já daria um best seller. Ou um terceiro pedido...
Fundo musical
" Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador"
(Ouro de Tolo - Raul Seixas)
" Touch me, Take me to that other place
Reach me, I know I'm not a hopeless case"
(Beautiful day - U2)
Chatice
- Qual música você está ouvindo?
- Hum... sei lá, alguma da Elias Regina.
- Tá mal, hein?
- Quê?
- Elis Regina é triste. Você deve estar triste. O que aliás não seria surpresa considerando tua personalidade introvertida e teu complexo de inferioridade. Conheço você, deve estar trancado dentro de si mesmo, menttindo pra todos um sorriso amarelo mas destruído por dentro. Sabe, já é hora de você trabalhar seu bloqueio com os sentimentos, aprender a expressar com franqueza o que sente ao invés de ficar enclausurado no seu próprio eu. Essa tua tristeza é sinal de um grande conflito interior, que tem a ver com teus traumas. Você precisa de ajuda pra superar os...
- Ah, vai te danar.
Medo
Não me reconheço mais. Não sou-penso-faço-como-escrevo-vivo nada do que planejei pra mim. E ainda não cheguei a conclusão se isso é bom ou ruim.
Retrato - uma paráfrase calórica
Eu não tinha este corpo de hoje,
assim gordo, assim feio, assim flácido,
nem estes culotes tão tristes,
nem um papo amargo.
Eu não tinha estes peitos imensos,
tão rechonchudos e indiscretos e pornográficos;
eu não tinha esta bunda
de tanajura.
Meu guarda-roupa não deu por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que cabine ficou perdido o meu manequim 40?
Menos um conto
Pessoas entram no ônibus pela manhã cedo. Sentam. Raios de sol entram preguiçosamente também. Todos alheios à humanidade. Há alguma beleza nisso mas, ah, que inferno, não tem jeito! Eu não consigo lembrar o que eu queria escrever.
Observação importante: Quando abri o blogger estava com saudade de escrever. Tanto que o Internet Explorer me fez escrever este post duas vezes, depois de fechar abruptamente e sem motivos aparentes na minha frente. Tudo bem, saudade morta e enterrada.
20.3.06
Carta a uma garota de quem apredni a gostar muito
Gosto muito sim, e nem sei dizer ao certo porquê, afinal, sabemos que não há tantos motivos que possamos numerar. Talvez eu tenha projetado em você uma esperança, uma poesia, uma figura de algum livro infantil de que eu gostava, ou a mim mesma nalgum momento da minha vida que nunca veio a acontecer. Gosto muito de você e por isso tenho andado preocupada contigo. Tanto que estou aqui, escrevendo algo que você nunca vai ler mesmo tendo um monte de provas me esperando ali logo adiante, mais casa e marido pra cuidar, tantas coisas... porém sua presença tem me perseguido suavemente por esses dias e eu preciso escrever-te - ainda que você nunca venha a ler - da minha preocupação e do meu gostar atrevido.
O que me preocupa mesmo? Ah, acredita que eu também não sei dizer ao certo? Acho que estou ficando ruim das idéias ou das palavras, também não sei. Mas sei alguma coisa. Sei que a tua fragilidade me traspassa como uma flecha. E a dor que sinto é a tua-minha dor que já conheço de quando minha alma foi pedaços. Só existem dois caminhos para a tua fragilidade: a redenção - que não é para você - ou a cura. Temo pela cura. É ela quem faz cessar o delírio a que você hoje chama sonho. E embora libertadora, essa cura nos faz ter saudades das correntes... tamanha sua atrocidade. Quanto a redenção só sei que ela é muito mais incerta que a cura, ainda mais que não depende de você nem do que você conhece. Consiste apenas em esperar, correndo o risco de não vê-la chegar antes que a cura te alcance.
Quando sonhei-te não imagine essa melancolia em seus olhos, pensei que fosse apenas a languidez própria de quem é muito doce. Não pensei que teus olhos fossem tão abertos, sem vidraças, deixando-te assim sujeita a invasões cruéis. Não queria te ver sofrer. Queria te ver forte, inexorável, com um sorriso completamente feliz, sem notícias ruins, sem tragédias diárias, sem notícias de desespero ou mágoa, sem desestruturação. Queria te ver uma deusa grega em dia de festa, nesta tua toga de luz, com uma franqueza na alegria dos lábios tão precisa quanto a impenetrabilidade do olhar. Quero que te guardes, e que ninguém sinta que precisa fazer isso por você. Que, ao contrário, sintam não precisas de ninguém pois és plena (não estou tratando de verdades, mas necessidades), e podes existir sozinha e ainda bela, com a beleza pura das virgens de porcelana em cima de pedestais cujo cume o olho humano não alcança. És uma santa de porcelana, cujo poder sobre todos os mortais está em não ser tocada. Quero que guardes tua alma. Guardes a mão do fascínio da tristeza. Escuta - não te derrames assim! Não suspire! Se necessário, nem respire. Ande por sobre o sofrimento sem pisá-lo, não te deixes contaminar. Continue deixado-nos pensar que voas. Será sempre melhor assim. Não falo de mentir, mas de interpretar.
Repare também que não estou tratando de beleza. A tua beleza infinita é inquestionável, mas não cabe em nossas mãos. O toque mais cuidadoso, guiado pelo devoto que mais te ama vai te manchar e destruir. Não deixes que isso aconteça, por favor. A tua beleza tem o fim de salvar, e enquanto não for destruída pelo amor, esperará com sucesso a redenção.
Mantenha-se forte, mesmo quando não se sentir assim. Imagino o que você acha disso, mas acredite, tua opinião não importa. Você já não vive apenas para você, mas para o jugo de salvar o amor de si mesmo. Só te peço isso porque a felicidade é o destino que tracei para você e para o destino.
Não mostre mais seu rosto, vista-se de nuvens (mas não tente calçá-las), pinte-se de sombras e aguarde, sorrindo, lá em cima, como o sol dos desenhos infantis. Mantenha-te num cenário de luz. A redenção virá enquanto ainda deliras, e com ela o descanso que haveremos de chamar felicidade.
Eu preciso crer nesse final feliz.
19.2.06
Oi, tudo bem?
Janeiro - Desespero absoluto. Um tetraplégico tentando dançar frevo.
Fevereiro - As coisas começam a se ajeitar. A resignação também faz milagres.
Março - uma promessa de sanidade, seja lá o que isso for.
Carnaval em Ricifi
Recife tem troça durante o mês de fevereiro inteiro
Recife tem bloco de rua, em tudo que é rua
Recife tem papangu nos sinais de trânsito
Recife tem alaússa batendo nas portas das casas
Recife tem Galo da madrugada que toma o Centro todo
Recife tem orquestras de frevo em vários bairros da região metropolitana
Recife tem caboclinho se apresentado em restaurantes
Recife tem maracatu em tudo que é rodinha intelequitual
Depois não sabem porque não gosto de Recife, hunfp. Estou indo para Garanhúns.
Liderando o caos
O legal de ter idéias é que, por mais idiotas que sejam suas idéias, a maioria sempre vai acatar por não conseguir pensar em mais nada. Um ou outro vai achar sua idéia idiota, mas se na sua idéia tiver a figura de uma flor ou de um bebê rindo ou de um cachorro, ou de alguém que estava quase morrendo, ou qualquer outra coisa que lembre lição de moral, a maioria vai ficar do seu lado e adorar a sua idéia.
Irritante, mas belo
Essas pessoas que sempre querem fazer o que é certo. São delas os erros mais graves..
Belo, mas irritante
Aquele velhinho que só fala comigo através de enigmas. Eu digo: "olá!" e ele responde com um provérbio chinês. Nunca sei ao certo o que ele quis dizer e isso me irrita profundamente. Vou acabar fazendo uma besteira. Vou acabar escrevendo um conto sobre ele.
7.2.06
Que veio de uma canção que ouvi
Palavras nunca chegam com hora marcada. Aliás, é isso mesmo que me irita nas palavras. Demoro meses até conseguir me obrigar a ser mais disciplinada e cumprir horários para dar conta das centenas de coisas que preciso fazer ou retomar, planejo tudo com uma margem de tempo suficiente para me dar tempo de pensar, mas as idéias só atacam quando estou ocupada fazendo algo totalmente diverso e urgente em que preciso me concentrar. Não adianta achar que rapidinho eu resolvo isso. Palavras exigem semp+re mais tempo que poderíamos lhes dedicar. Aí vem a sentença terrível:
- Pára tudo e dá-me corpo, ou devoro-te.
- Ah, devora-me então, pitomba! Não vou deixar você estragar tudo outra vez.
- É? Então vou embora. Você vai me esquecer. Pior, você vai lembrar apenas que me esqueceu.
- Que petulante. O mundo não precisa de você. Se eu largar tudo agora e ir correndo pra o computador só para satisfazer seus caprichos ou se eu lhe ignorar solenemente o mundo continuará girando na mesma órbita. Ninguém sentirá falta de você, coisinha arrogante. Ninguém está esperando por você. Ninguém procura por você. Ninguém vai te ler, e ainda que lesse, você logo seria jogada no lixo do esquecimento. Porque, torno a repetir, o mundo não precisa de você.
- Hahahaha. Você precisa de mim, e isso me basta. Vamos, saia daí agora.
Para uma declaração de amor.
- Acho que eu começaria assim: "Meu grande amor..."
- Ih, pode parar.
- Ué, por quê? Chavão?
- Pior que isso, mentira.
- Mas você é meu grande amor.
- Querida, qual amor não é grande? Estou certo de que você já amou mais de uma vez. E nunca nos confessamos amando para não achar que nosso amor é grande a ponto de arrebentar as fibras do espírito.
- Isso foi legal.
- Mas é comum a todos, entende? Todos os seus amores foram grandes. "Grande" não faz seu amor por mim especial.
- Bem... então acho que eu começaria assim: "Meu maior amor..."
- Dá na mesma. Quem é capaz de mensurar com precisão o tamanho do amor total? Existe amor total? Ele não crece exponencialmente até o infinito? Basta olhar só para nós dois. Hoje você me ama mais que há um ano, né? - É...
- O amor é sempre maior no futuro. Seja lá com quem for. Um amor nunca pode ser "o maior" no passado... mesmo que seja há um segundo atrás.
- É verdade, não tinha pensado sobre isso. Mas eu tenho que começar, não é?
- Tem?
- Deixa eu tentar outra vez. Eu começaria assim: "Meu amor..."
- É bonito, mas um tanto egoísta. O pronome possessivo denota uma certa vaidade, um desejo de poder. Aí o amor serve apenas para amenizar a necessidade de prender.
- Não... minha intenção era referir-me a sentimento, entende? "Meu amor" pretende lhe dizer o que você desperta em mim...
- Ah, eu entendo, juro. Mas não é apropriado dirigir-se a mim referindo-se a um sentimento. Ao longo do tempo em que ficarmos juntos vou te despertar outros sentimentos também. Raiva e desprezo às vezes. Pena e nojo talvez. Então já não serei objeto do seu amor? É perigoso reduzir o amor a um sentimento.
- Tá bom, eu desisto. É melhor não falar nada então. Você não consegue ver apenas a beleza das palavras, quer a verdade em tudo! As pessoas podem viver sem verdade, mas sem beleza, é impossível!
- A verdade pode ser bonita também. E a melhor maneira de apreciar a estética do amor não está nas palavras. A palavra é para o amor, como uma mão tentando acariciar o orvalho numa pétala. Impossível não ferir a beleza do orvalho com o toque.
- Mas e se o orvalho quiser ser tocado mesmo assim?
- Então a mão ferirá a pétala.
- Mais alguma verdade?
- "Não pronuncie seu santo nome".
- Amém... mas, para mim, você apenas não quer ouvir que eu te amo.
Auto análise ainda.
Meu problema, pensei bastante sobre isso, deve se resolver assim: não nasci para coisas realmente grandes, mas para ver a grandiosidade das coisas pequenas. Assim, não tenho estrutura para o heróico ou o simplório. Fico quebrada diante de ambos. Mas consigo ver um desenho interessantíssimo nos cacos.
30.1.06
Dúvida e certeza
Forte
Inesquecível
Ardente
Atemorizante
Inflamado
Contagioso
Maior
Apoteótico
Mais
Atemporal
Irrestrito
Marcante
Grande
Eterno
Limítrofe
Total
Trágico
Perfeito
Depois brigam comigo quando confesso desconfiar que vou morrer cedo.
Poesia
Beleza
Graça
Sensibilidade
Profundidade
Essência
Luz
Música
Espírito
Suavidade
Arte
Bondade
Ando cada vez mais descrente da minha utilidade neste mundo.
Coisas que só se vêem numa faculdade de Música
Hoje um professor convidado tocou solos de gaita búlgara numa aula sobre iniciação musical.Sim, eu estou no curso certo.
11.1.06
Memória
Apresentação do Coro Unversitário no final de 2005. Nona Sinfonia de Beethoven. Ê, saudade gostosa!
E se fosse um brilhante?
Fim de caso. Mas ele queria que ela lembrasse dele de vez em quando, então lhe deu uma camisa verde que lhe pertencia há alguns anos. Ela ficou emocionada. Como não lembrava de nenhum momento especial entre eles que a roupa tivesse protagonizado perguntou pela origem da peça. Ele explicou que a comprou numa lojinha em Buenos Aires. "Estava um pôr-do-sol lindo, a loja ficava num lugar muito romântico, cercado de árvores e pássaros, um tango plangente tocava ao fundo... quis levar algo que marcasse aquele momento íntimo de felicidade. Entrei na loja, onde havia muitas coisinhas graciosas e me decidi pela camisa." Ela, ainda sem entender, sorriu mais emocionada, os olhos se enchendo de lágrimas. Partiram. Ela achou a camisa muito feia e surrada, e a guardou para sempre no fundo bem fundo da última gaveta do armário.
Lembrete
O mal do amor romântico é achar que pessoas são conquistadas através de poesias, quando na verdade é exatamente o contrário.
O google não é mesmo formidável? Suas artes são inesquecíveis.

3.1.06
Gente estúpida
É ótimo que as pessoas desejem ser melhores este ano. O simples desejo já as faz melhores. Mas antes que venham a se achar realmente boas, deveriam pensar em como é grande o conjunto de asneiras que fazem sem nem se dar conta. Ora, qualquer um que já leu dez páginas de um livro de auto-ajuda sabe que os nossos erros servem para nos fazer melhores e evitar que voltemos a errar no futuro. Mas o que dizer daqueles errinhos terríveis que nem notamos que fizemos? E das pessoas que nos odeiam sem que nunca venhamos a saber o porquê, quiçá, venhamos a saber? O simples fato de existirmos já é um incômodo pra outros seres vivos, como para o peixe que eu comi no almoço ou o gari que recolheu meu lixo de ano novo, todo cuidadoso pra não se cortar em alguma garrafa de champagne (safou-se porque eu não bebo).
E ainda há pessoas - como eu - cujo potencial de abestalhação é enorme, e elas simplesmente não reparam em como podem ser más e incovenientes.
Professora de canto - Querida, quando Shirley D´Ávila, aquela mega soprano começou a cantar, tinha a voz igualzinha a sua.
Eu, arregalando os olhos em direção à Querida - Nossa senhora da canela fina!!!! Jura??? Sério mesmo que ela cantava com essa voz?!!!!!! (sim, seis exclamações) Mas tudo é possível nesse mundo mesmo, né?
Querida - (Me fuzila com os olhos mas eu nem percebo porque também não percebi a idiotice que acabei de dizer)
Professora de canto - Hehehe... cantem comigo: lá lá lá lááááááá!
Agora vou dizer que não foi por mal? Claro que foi. Uma maldade não intencional, não consciente, mas ainda assim maldade, pelo simples fato de eu ter aberto a boca pra falar algo que ninguém pediu pra ouvir.
Este ano eu quero ser alguém melhor. Mas não vou fazer listas. E nem acreditar que, ao final, terei conseguido meu objetivo. E está ótimo assim.
Eu não respondo mais a nenhuma pesquisa
O que de pior pode acontecer a uma jovem senhora metida a escritora que acorda especialmente inspirada certa manhã e posta-se na frente do computador pronta para fundar um novo movimento literário? A campanhia.
- Oi, posso fazer uma entrevista? É sobre produto de limpeza.
Uma menina simpática embaixo de um sol de rachar, pasta em punho, sorriso terno. Se não fosse o sol de rachar...
- Vai demorar muito?
- Não se a senhora responder rápido... então vamos lá.
Nome, endereço, dados, dados, começa:
- Qual o nome do detergente que a senhora usa?
- Sei lá, lembro não.
- Ah, lembra aí, diz a moça ajeitando a prancheta.
Depois de concetrar-se como um monge lembra.
- Certo, e quantos ml tem a embalagem?
- Aff, como vou saber? Eu nunca olho!
- Pois deveria. Olha aí, vai. Eu espero.
500ml. Nunca mais esqueceria depois de ir até o quintal só para descobrir isso. E as perguntas se sucedem: "qual o saponáceo que tem o cheiro mais forte? Qual o produto de limpeza que usa para limpar o vaso sanitário por dentro? E por fora? E por cima? Qual a marca que pensa mais no consumidor? Qual marca mata todas as bactérias?"
- E como você sabe que ela matou todas as bactérias?
- Eu não sei.
- E como se sente com sua casa cheia de bactérias?
- No planeta Terra.
- Eu não posso escrever isso. Diz outra coisa, que tem vontade de trocar de produto.
- Eu não tenho vontade de trocar de produto.
- Mas...
- Tá, tá, eu tenho vontade de trocar de produto.
- Qual produto usa para limpar os dejetos do seu gato?
- Ele faz cocô na areia.
- E qual produto a senhora usa pra limpar o cocô dele?
- Ele faz cocô na areia, no quintal. Eu recolho e jogo fora.
- Sim, mas eu tenho que anotar aqui qual produto a senhora usa pra limpar os dejetos do seu gato.
- Põe suco de caju concentrado. Anota que neutraliza odores.
- Tem que ser um detergente, moça! Ela diz indignada com tamanha ignorância da jovem senhora.
Antes que a jovem senhora tenha vontade e morrer ali mesmo, a moça continua: "Qual produto é pra rico? E pra pobre? Quais fragrâncias desse produto a senhora conhece? (lista cem) Como a senhora receberia um novo detergente com fragrância de sol da meia-noite? Que tipo de limpeza a senhora faz na sua casa: leve, média ou pesada? Como assim depende da fase do ciclo menstrual? Escolha só uma, moça. Limpeza leve? E como se sente quando as visitas chegam na sua casa e vêem tudo sujo? A senhora se sente realizada como dona-de-casa quando deixa ela limpinha? Por que não? A senhora se sente feliz limpando sua casa? Por que não? A senhora tem certeza que quer ter uma casa? Pra que então?? Que sabão a senhora usa para lavar suas calcinhas? A senhora lava suas calcinhas no banheiro? A senhora lava suas calcinhas?"
- Agora tá perto de terminar, viu? Por que a senhora usa esse sabão?
Ela pensa em todos os comerciais de sabão que já viu e tasca uma resposta linda:
- Porque espuma. Espuma muito, bastante, é espuma a perder de vista. É um mar de espuma perfumada como o sol da manhã com passarinhos cantando e uma leve brisa balançando os lençóis.
- Como assim espuma?
- Hein?
- Fale mais sobre a espuma. Como ela é? Como você descreveria a espuma? Ah, não chora não, moça, fala aí...
22.12.05
Uns arteiros
Um anafalbeto nunca vai se meter a dizer que "Celine Dion é uma diva da ópera", que ir ao Teatro é "chique", se gabar de que adora ler porque tem Paulo Coelho ou Jô Soares na cabeceira, se achar informado porque não perde um Jornal Nacional e assina Veja, ou julgar-se cult porque no seu casamento um coral cantou "Aleluia de Hamlet".
Não estou falando da elite intelequitual esnobe, que realmente sabe alguma coisa mas não usa isso pra nada digno, estou falando de uma pseudo-cultura perniciosa e destrutiva. Um analfabeto sabe que precisa de ajuda para sair de sua condição. Um mal-alfabetizado acha que não precisa de ninguém pois já sabe tudo, que seus conhecimentos gerais são "profundos", e ajuda a estragar ainda mais a pseudo-cultura de outros mal-afalbetizados. Um analfabeto pode culpar o governo, um mal-afalbetizdo só pode culpar a si mesmo porque, tendo condições de conhecer, preferiu ler só os títulos. Um analfabeto não compra livros. O mal-afalbetizado compra aquele cuja capa combina com sua estante.
São eles, os mal-afalbetizados, que espalham na internet mensagens bonitinhas mas ordinárias assinadas por Clarice Linspector, Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Millôr Fernandes. Eles têm conhecimento suficiente para saber que esses autores existem e são grandes literatas. Mas nunca leram uma página deles, logo não têm cultura para identificar que o estilo da mensagem não tem nada a ver com o suposto autor. E não contentes em chafurdar na sua ignorância, repassam-na singelamente a outrem, num movimento destrutivo em massa. Sempre fico imaginando a cara de um Millôr ao ler um texto ruim pra caramba e ver seu nome fulgurando embaixo. Anos e anos construindo uma escrita, enfrentando críticas, parindo livros... e um mal-afalbetizado pode acabar com sua reputação literária em minutos. Não acaba porque quem conhece o autor desconfia e ri. Mas um outro mal-afalbetizado que não o conhece lê o texto apócrifo e o toma por verdadeiro. Aí a situação piora, porque se antes só conhecia o nome do autor, agora ele conhece mal o autor, e já pode dizer pra todo mundo que adora Millôr, "ele é tão romântico!".
Para um mal-afalbetizado e para um intelequitual, arte é apenas mais uma forma de status. Mas um mal-alfabetizado não quer saber o que é arte. Encontrei com um outro dia que me perguntou o que eu andava cantando. Respondi que algumas peças eruditas: Carmina Burana, alguma coisa de Beethoven, Mozart, Schumann...
- Ah, lá no Teatro, né? Escuta, você devia se inscrever no FAMA da Rede Globo.
Ainda
Quando foi embora
esqueceu uma rima,
um quarto de hora,
e as chaves em cima
da minha dolência.
Deixou uns pretextos
vagos espalhados
e uns mil contextos
por todos os lados
da sua ausência.
Quando foi embora
não fechou a porta
e vaga agora
como sombra morta
pelo corredor.
Então, o pior:
roubou-me a distância,
as sombras, o pó,
e a ignorância
quanto a sua dor.
Fiquei com saudade
de nada saber
da sua verdade
e de não lhe ver;
cega e feliz.
Fiquei carecendo
de um esconderijo
e de um adendo
pra o meu rosto rijo
de péssima atriz.
Fiquei aspirando
não ter mais palavras
perder-me pensando
só eu e as larvas
no meu cobertor.
Mas - biltre! - preciso
entocar-me lá fora
com flores e um riso:
quando foi embora
foi quando chegou.
Saudade do escuro
e de não ouvir,
do imenso muro...
saudades de ti
e de um estopim.
Saudades apenas;
sem rugas, sem rosas,
posto que há penas
bem mais dolorosas
cumprindo-se em mim.
(não é de Clarice Linspector, é minha mermo)
19.12.05
Quase no fim...
Vejo
que tu me vês.
Mas tenho visto coisas...
invento tolas teorias visionárias.
Mas quem dá ouvidos a uma míope?
Ouço
que tu me ouves.
Mas será apenas o silêncio
da indiferença que eu cismei ser teu ouvido?
Ai, que desgosto...
Degusto
teu paladar-me faz mal -
me fere as entranhas
(maldita gastrite)
Quem manda em mim é o meu nariz.
Cheiro
teu farejar distante.
Cachorros sentem a fêmea num raio de 2 Km (nem se vêem!).
Por isso não te dou as costas.
Ninguém se toca!
Toco
apenas esse piano desafinado.
Você não está, não quero sentir mais nada.
O que os olhos não vêem...
(da capo)
Minha lista de desejos?
- DVDs de ópera. Podem ser comprados em bancas de revista por 19,90. Baratinhos, nos ajudam a compreender a arte do canto lírico, curam problemas de insônia, de auto-estima também (geralmente os cantores são feios que dói, e se não são feios fazem caretas medonhas), além de serem ótimos para impressionar as visitas.
- Dostoiévsky. Completinho (calafrios percorrem-me a espinha)
- Herdando uma Biblioteca - Miguel Sanches Neto. Fiquei chocada com a descrição do livro, que descreve minha própria vida como um espelho, exceto pelo pobre destino de crítico literário do menino. Eu já surrupiei livro de várias bibliotecas. Será que Sanches Neto descobriu? Fiquei com medo e não tive coragem de comprar. Mentira, é só que ainda não tive tempo nem dinheiro mesmo, hehehe! Alguém me dê esse livro antes que eu o furte!
- Amendoins confeitados - saco de 1kg. Adoro isso!
15.12.05
Recados
A mim basta culpar-me por uma alegria
sem de fato a tocar.
Basta ter um canto sujo na alheia poesia;
não faço alarde.
Basta que encontre alguns devaneios
lendo Cortázar.
Ou que imagine impossíveis anseios
para um fim de tarde.
Basta apenas ver minha malícia ignota
em brumas, malograr.
Desejar que queime sem-fim o que brota
da nossa carne.
Dancem, dancem, porque a mim somente basta
um demente sussurrar
E quando descobrirem que o tempo os arrasta,
não terei parte.
Dos meus erros o mais belo a infernizar:
a virgem casta.
Basta que o meu próprio mal me farte.
E, sobretudo, basta!
Mural
- Fah, você tem estado sempre por perto, mas eu nunca consigo te ver. Afinal, você está com blog? Algum lugar onde eu possa dizer: "concordo, um beijão!"?
- Senhor gastroenterologista. Seja gentil, pontual, evite piadas de mau gosto. O senhor tem pacientes com gastrite nervosa a tratar.
- Edu, este blog só sobrevive porque eu guardo sempre uma dorzinha de estimação, dessas que não se segredam. O resultado é este estilo meio obscuro-enigmático-nó-em-pingo-d´água, que é um saco, mas rende...
9.12.05
Intrigantes
Você está se achando, né?
Você está podendo, né?
Você está descobrindo-se no Olimpo.
Você está banhando-se num mar morto cor-de-rosa.
Você está crendo em flores noturnas.
Você está roubando o que é seu.
Porém, você está.
Não esqueça disso.
Vá estudar sintaxe verbal e não me amole.
Música
Deve haver algum significado no fato de que a diferença entre música triste e música romântica é bem sutil, principalmente se desconsiderarmos a letra. Quer coisa mais romântica que "I get along without you" sem letra? Quer coisa mais deprimente que qualquer música da Celine Dion? Vixe!
O melhor é que uma sonata de Mozart acaba com tudo isso de uma vez só.
Dúvida
Por que um sorriso casual de alguém desconhecido atravessando a faixa de pedestres, às vezes, pode nos deixar tristes o resto do dia?
5.12.05
Incofenssáveis
Era seu grande amigo Nestor. Tinha-lhe um amor tão grande que precisava cumprir a promessa e ir lá visitá-lo. Mas por que ele tinha que morar tão longe? Por que tinha que ter ido embora? Não importava mais. Era seu grande amigo e tinha que cumprir a promessa de ir visitá-lo, afinal já fazia quase quinze anos! Fez duras economias, passou alguma necessidade até, vendeu uns bons CDs, desfez-se dos seus Dostoiévskys, ficou devendo duas ou três contas e as Casas Bahia levaram seu som embora. Mas empenhou o relógio de ouro do pai e comprou a passagem. Do aeroporto até a casa do Nestor foi um suplício. Por que tinha de ser uma viagem tão desagradável? Poltronas apertadas, crianças birrentas, vôos atrasados, e a comida lhe fez mal a ponto dele querer arrancar os próprios intestinos. Já na casa do amigo - ah, o Nestor - nada mais voltava a importar. Depois das saudações iniciais e álbuns de fotos não restou muito para conversar. Então assistiram filmes e foram ao teatro ver uma peça, muito ruim por sinal. Passaram num restaurante onde comeu pessimamente e antes de dormir seu amigo lhe contou histórias enfadonhas entrecortadas por piadas insossas que lhe causaram caimbras nas bochechas e espasmos no supercílio esquerdo devido ao esforço para manter uma feição mais ou menos sorridente e surpresa.
Dormiu mal, sonhou que era perseguido por uma cadeira de balanço assassina. No outro dia voltou pra casa com o peito aliviado, a placidez de quemtem o dever cumprido. Nunca mais viu o Nestor outra vez.
Terríveis instintos

Prazer inebriante: xingar um desafeto. Nem precisa lhe ser dirigido diretamente, apenas soar. Pode ter baixo potencial ofensivo, desde que acerte a ferida. Tem que ser dito com calma e bom humor, olhando de cima. E parecer inteligente para que achem que você não perdeu a razão - e ainda te dêem razão.
Um xingamento preciso e elegante vale por um bifinho (no olho do desafeto).
30.11.05
Admirável mundo velho
Todas as vezes que achei que nada mais me surpreederia quebrei a cara. Mas alguns golpes da imprevisibilidade chocam mais que outros. Deprimem. Aquela história que você já ouviu mas nunca tinha vivido exatamente: conviver anos com uma pessoa com quem você se identifica pra caramba e de repente, não se sabe exatamente quando ou de que forma, desconhecer aquela pessoa completamente. Tudo que ela fala, pensa ou faz parece vir de um extraterrestre chato e intragável que você nunca viu mais gordo. Não adianta dar uma chance ou duas para ver se é influência do clima, da fase lunar, disfunções hormonais... toda a admiração e carinho agora viram lembrança junto com aquela pessoa que você pensava conhecer.
Ah, não, não é o meu marido:-) Mas o assustador é que poderia ser. Faz quase dois anos que estou casada e até agora não descobri nada que justifique a má fama do casamento, meu marido é também meu melhor amigo. Mas posso apostar um pacote de biscoito treloso como essa "trágica mudança" - permita-me chamar assim o fenômeno - é a maior causa das separações atualmente. E de quem é a culpa? Da velocidade do nosso século? Da sua efemeridade que nos obriga a estar sempre substituindo(-se)? Da internet? Da opressão sexual? Do governo?
Quer dizer, mudar todo mundo muda, é a tal sentença de Heráclito: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Mas e quando você se depara só com um leito seco? Será a sequidão o destino que antecede o nosso próprio pó?
O que leva uma pessoa a mudar assim? O que acontece pra uma pessoa que você conheceu bem humorada, carinhosa, simples, terna, gentil, de repente se tornar fria, esnobe, cansativa, pedante, insensível? Será que foi algo que você fez? Não creio, não houve lugar pra isso. Será coisa da idade? Improvável, a mudança foi repentina demais. Será que foi você quem mudou? Preocupante: se for isso, certamente você é o real chato da história. Ai, estou com medo, é melhor mudar de assunto.
Mais minorias
Depois me cadastrar em trocentos sites até achar um fotolog decente, reparei numa unanimidade: os sites brasileiros sempre deixam selecionado automaticamente "São Paulo" como cidade do usuário. Então você que não é da citada metrópole tem que ir lá e mudar, dizer que nem todo brasileiro que tem internet e deseja um flog é paulistano. Será apenas uma questão de estatística? Fiquei me sentindo mal com esse pequeno detalhe. E ao selecionar o estado Pernambuco, automaticamente apareceu Recife como opção de cidade. Estatística de novo? Essa justificativa basta para ignorar o fato de que nem todo pernambucano que acessa a net é da capital?
Feliz eu fiquei quando, em certo site, ao selecionar Pernambuco, apareceu automaticmanete Abreu e Lima, cidade vizinha de Recife na caixinha. "Ah", pensei, "até que enfim não se deu privilégio à maioria!". Ledo engano, era apenas uma questão de ordem alfabética...
Bem, mas meu flog tá AQUI
23.11.05
Weblogger nunca mais
O weblogger é, positivamente, uma %&$#$/#=!
Resisti bravamente por quatro penosos anos naquela miséria então hoje eles resolveram apagar meu e-mail do banco de dados, e eu não consigo sequer fazer o login - sou dada como indigente.
Todo mundo sabe que não vivemos num mundo seguro, por que seria diferente na internet?
Mas tinha que ser justo agora que eu estava determinada a escrever com mais frequência, e já tinha até feito uma coleção de grandes posts pequenininhos?!
Não gosto de mudanças e me considero uma pessoa razoavelmente tolerante. Mas sei conservar minha dignidade. Enquanto muitos ainda choram o blogcídio e outros sustentam um leve riso mordaz no canto da boca (Mas eu te disse! Eu te disse!), eu já arrumei a casa nova e limpei o cocô dos gatos no jardim.
Deu um trabalho danado, mas como todo trabalho duro, deu fome. De escrever.

